terça-feira, 8 de junho de 2010

Da luta contra a ditadura à crítica das elites

Em 2007, fiz uma entrevista para a revista Sextante, da Faculdade de Jornalismo da UFRGS, com o advogado Carlos Franklin Paixão de Araújo, um dos líderes da luta contra a ditadura militar, deputado estadual mais votado no Rio Grande do Sul e ex-marido da candidata à presidência da República, Dilma Rousseff. Passados três anos, resolvi postá-la no blog pela atualidade dos assuntos tratados. Selecionei alguns trechos que considero mais interessantes.

Carlos Franklin Paixão de Araújo cresceu assistindo as reuniões de seu pai com os comunistas da pequena cidade de São Francisco de Paula. Aos 14 anos entrou para a Juventude Comunista e logo depois se desligou do Partidão, pois defendia a idéia de construir um partido com “raízes nacionais”. Foi um dos líderes da luta contra a ditadura militar, período em que conheceu a companheira de muitos anos, Dilma Rousseff. Pela busca do partido nacional, após a abertura política entrou para o PDT e foi o deputado estadual mais votado. A derrota na eleição para a prefeitura de Porto Alegre, provocada pelos próprios companheiros de partido, deu início ao afastamento da política partidária. Mas Carlos Araújo continua fazendo política, criticando as elites e os partidos.

Para conhecer um pouco mais sobre a história de vida deste homem e suas opiniões sobre a política de hoje é que resolvi entrevistá-lo. Sem pressa e com o carisma que o tornou um grande líder, ele fala sobre os anos da ditadura, a tortura na prisão, a política no PDT e a indignação com os veículos de comunicação e, principalmente, com o PT.


A partir de 1964, com o início do período militar, como o senhor começou a participar dos movimentos contra a ditadura?

No primeiro momento eu pensei em voltar a trabalhar com a advocacia, não tinha muito o que fazer, todos estavam sendo presos. O golpe foi em começo de abril e em maio meu pai, meus irmãos e eu acabamos sendo presos dentro do nosso escritório. Ficamos 40 dias onde era a Febem aqui de Porto Alegre. Nessa altura eu já tinha rompido definitivamente os meus laços ideológicos com o partido Comunista, o meu negócio era Cuba, o novo socialismo, e também era viver as nossas raízes, construir um movimento voltado para nossa história, e foi o que fiz.

O senhor começou a acreditar na luta armada a partir da experiência do seu pai, em São Francisco de Paula?

Sim, foi vendo meu pai defendendo posseiros e depois com Julião (Francisco Julião – Ligas Camponesas). Mas nós começamos a nos mexer com a luta armada somente em 1966. Aí começaram a sair nos jornais as nossas primeiras ações. Eram ações muito românticas, nós assaltávamos bancos e depois fazíamos discursos. A nossa organização reunia um pessoal aqui do Rio Grande do Sul, de São Paulo, da Bahia, e de outros estados. O movimento não tinha nome, então nos documentos chamávamos de “O.”, como referência a “Organização”. Nesta época eu conheci a Dilma, ela era representante da Colina, de Minas Gerais, na O.

Como surgiu a idéia de assaltar o cofre do ex-governador Ademar de Barros? Esta ação foi coordenada pelo senhor e pela Dilma?

O nosso grupo, a O., era tão grande que nós não tínhamos como sustentar, faltava dinheiro para a comida e tinha os aparelhos também, que com freqüência tínhamos que trocar para não nos acharem, então acabávamos fazendo assaltos todos os dias para poder nos manter. Por isso decidimos que precisávamos fazer uma grande ação para pegar dinheiro. Aí um companheiro disse que conhecia um cara que sabia onde tinha cinco milhões de dólares. Esse cara era sobrinho do doutor Rui, como era chamada a amante do Ademar de Barros. Ele nos contou que no palacete dela havia um cofre onde era guardado todo o dinheiro do jogo do bicho. Neste momento, eu e a Dilma éramos da direção da O., nós não coordenamos diretamente a operação, quem fez isso foi o companheiro Juarez Brito, que era responsável pelas operações. Foi uma ação muito complicada, porque no palacete havia mais de 20 pessoas, mas conseguimos, levamos o cofre em uma caminhonete até um apartamento que alugamos, uns sete quilômetros do palacete. Mas o que fazer com aquele dinheiro todo? Precisávamos trocar os dólares sem que nos descobrissem. Peguei, junto com outro companheiro, o Espinosa, duas malas de dinheiro e fomos até o kitnet que eu morava com a Dilma. No outro dia, a Dilma e a Maria Auxiliadora, esposa de Espinosa, se arrumaram bem e como falavam ingleses fluentemente, se passaram por turistas para trocar um pouco do dinheiro em uma casa de câmbio. Como deu tudo certo, começamos a fazer o mesmo em outras casas de câmbio, até que conseguimos trocar o montante maior com um banco, o Bradesco. Mandamos uma parte do dinheiro para os companheiros que estavam em situação muito difícil no exterior e ficamos com o resto.

Como foi a sua prisão em São Paulo?

Eu estava comandando a organização no Rio de Janeiro e a Dilma estava em São Paulo. Depois da prisão dela, eu assumi o comando em São Paulo. Fui preso na rua, quando tinha encontro com uma pessoa do grupo. A tortura era muito violenta, até entrar ali a gente acha que vai resistir e isso é muito ruim porque quando se é jogado lá dentro a gente tem que aprender que ninguém agüenta a tortura, que ninguém aguenta a dor continuada, que entre a dor continuada e a morte a gente prefere a morte, que entre a vergonha de falar e a morte preferimos a morte. Mas isso a gente só aprende ali, na prática. Foi o que aconteceu comigo.

Em 1979, com a volta da pluralidade de partidos, o senhor se filia ao PDT. Por que desta escolha?

Desde quando rompi com o Partido Comunista, eu queria a construção de um partido com raízes nacionais e o PDT representava isso. O caminho natural seria para que eu fosse para o PT, mas o PT é um partido que nega a sua história, que negou Getúlio, Jango e Brizola, que disse que a luta dos trabalhadores começou em 1977, no ABC Paulista, quando na verdade ela passa pelo Getulismo. Que partido é esse que despreza a nossa história?

O senhor acha que o PT era uma falsa esquerda?

O PT é uma falsa esquerda, eu já sabia disso naquela época. O PT é uma coisa passageira, trágica, prejudicial, que tentou desviar os trabalhadores do seu rumo e que conseguiu fazer isso, aniquilando com o movimento operário no Brasil. Depois que o PT ficou forte mesmo, nunca mais teve uma greve, acabou com a CUT, só não conseguiu acabar com o MST porque o movimento tem uma autonomia muito grande. Hoje o PT está demonstrando que é um partido de centro-direita, que representa as elites.

A sua derrota para Olívio Dutra na eleição para prefeito de Porto Alegre, em 1988, pode ser atribuída ao seu companheiro de partido, Alceu Collares?

Ele me derrotou. Mas quem errou fui eu que não estava preparado para enfrentar a luta interna no meu partido. Quando ganhei a convenção e saí candidato, eu surpreendi ele, que era contra a minha candidatura. Para me sabotar, colocaram a condição de a Neuza Canabarro ser a minha vice, eu não aceitei, aí caiu a casa. O Collares era o prefeito e acabou estimulando uma greve dos lixeiros da prefeitura. Dez dias antes da eleição, eu estava na frente nas pesquisas, explode a greve e toda a semana que antecede a eleição o lixo não é recolhido na cidade. Acabei perdendo por poucos votos. Eu deveria ter denunciado o prefeito, mas eu vacilei, achei que não era o correto porque queria manter uma unidade no partido.

O senhor representava uma ameaça aos outros líderes do partido?


Eu representava uma ameaça ao Collares, que queria ser governador.

Quando o senhor resolveu sair do PDT?

Eu me desliguei do partido na eleição do Collares contra o Tarso Genro para prefeito no ano de 2000. Eu não ia apoiar o Collares, mas também não poderia ficar no partido sem apoiá-lo, é uma questão ética.

Por que o senhor não se filiou em nenhum outro partido?

Porque não tinha nenhum outro partido que eu acreditasse. Se eu tivesse que voltar para um partido hoje, seria para o PDT. Eu acredito que vão surgir lideranças no partido que vão retomar o caminho.

Sobre a democracia brasileira, qual a sua opinião?

Não há democracia num país que tem quinze milhões de analfabetos, que morre quase um milhão de crianças por ano de fome e onde a mídia é dominada por dois, três grupos privados. Isso não é democracia, é uma ditadura da mídia que nos condiciona. Eu só posso falar em democracia formalmente, mas não é uma democracia real.

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